'Atiram para matar', 'tiros na cabeça', ruas desertas: iranianos relatam situação após Irã retomar comunicação com o exterior
13/01/2026
(Foto: Reprodução) Trump ameaça intervir militarmente no Irã
O Irã retomou parcialmente a comunicação com o exterior nesta terça-feira (13), dias após o governo cortar o sinal dos telefones e da internet em repressão aos protestos que vem dominando o país.
Com a retomada, iranianos conseguiram relatar, por telefone, a violência causada pela repressão.
"Eu vi um jovem levar tiros na cabeça", disse um empresário de Teerã ao jornal "The New York Times", que se identificou apenas como Saeed — a maioria das pessoas não se identificou por medo a represálias.
"Na sexta, forças de segurança só mataram, mataram e mataram. Vi com meus próprios olhos", relatou outra moradora de Teerã à rede britânica BBC.
Segundo iranianos que falaram à agência de notícias Associated Press através de ligações telefônicas — de forma anônima, por medo de represálias —, o acesso aos aplicativos de mensagens de texto ainda está fora do ar.
Apenas sites locais autorizados pelo governo estão sendo acessados, mas nenhuma página do exterior está disponível.
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Os primeiros relatos depois de dias de isolamento total também dão um cenário de como está a capital do país, Teerã: ruas quase desertas, forte presença policial, prédios governamentais incendiados e caixas eletrônicos destruídos.
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Segundo moradores, policiais antimotim, usando capacetes e coletes à prova de balas, portando cassetetes, escudos, espingardas e lançadores de gás lacrimogêneo, fazem a vigilância em cruzamentos importantes.
Membros da força voluntária Basij, ligada à Guarda Revolucionária, com armas de fogo e cassetetes, e agentes de segurança à paisana também estão atuando na repressão do governo nos espaços públicos.
De acordo com os iranianos que falaram à AP, vários bancos e repartições públicas foram incendiados durante os distúrbios. As lojas estão abertas, porém há pouco movimento de pedestres pela rua.
O Grande Bazar de Teerã, onde as manifestações começaram no dia 28 de dezembro, deve reabrir nesta terça-feira. A ordem teria vindo das forças de segurança, no entanto, a informação não foi confirmada pela mídia estatal iraniana.
O lojista Mahmoud, que se identificou apenas pelo primeiro nome por segurança, diz que a população permanece preocupada com o que pode acontecer no país, incluindo a possibilidade de um ataque dos Estados Unidos, após declarações do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
"Meus clientes comentam sobre a reação de Trump e se perguntam se ele planeja um ataque militar contra a República Islâmica. Não acredito que Trump ou qualquer outro país estrangeiro se importe com os interesses dos iranianos", afirma.
Reza, um taxista, fala que as manifestações devem continuar: "As pessoas — principalmente os jovens — estão sem esperança, mas falam em continuar os protestos".
Cerca de 2 mil mortos, diz agência
Corpos do lado de fora do Centro Médico Forense de Kahrizak, em Teerã
Redes Sociais/via REUTERS
A repressão aos protestos que ocorrem no Irã já deixaram cerca de 2.000 pessoas mortas, afirmou nesta terça-feira (13) um membro do governo iraniano à agência de notícias Reuters.
A fonte ouvida pela Reuters culpou os manifestantes, que chamou de "terroristas", por mortes de cidadãos e agentes de segurança durante os protestos.
➡️ As manifestações, que começaram em dezembro, tinham como foco a má situação econômica do país, mas a repressão violenta a elas levou os manifestantes a pedir o fim do regime dos aiatolás, que goveram o Irã desde a Revolução de 1979.
Também nesta terça, o alto comissário da Organização das Nações Unidas (ONU) para os Direitos Humanos, Volker Türk, se disse "horrorizado" com o que chamou de repressão das forças de segurança iranianas aos protestos pacíficos.
Oficialmente, o Irã não havia confirmado o novo balanço até a última atualização desta reportagem. Na segunda-feira (12), o ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araqchi, declarou que a situação o país estava "sob controle total" após o aumento da violência ligada aos protestos durante o fim de semana.
O chanceler iraniano acrescentou que a ameaça do presidente dos EUA, Donald Trump, de uma nova ofensiva contra Teerã caso a repressão violenta aos protestos continuasse, motivou "terroristas" a atacar manifestantes e forças de segurança, para justificar essa intervenção.
EUA devem intervir no Irã
"Vamos atingi-los com muita força onde mais dói", disse Trump, em relação ao Irã, na semana passada.
O presidente norte-americano já havia dito que faria uma intervenção anteriormente. Em 2 de janeiro, ele declarou que os EUA estavam “prontos para agir” se pessoas que protestam de forma pacífica forem mortas.
No sábado (10), Trump renovou as ameaças ao dizer que o Irã está "buscando a liberdade" e que os norte-americanos estão "prontos para ajudar".
O grupo de direitos humanos HRANA, com sede nos EUA, afirmou às agências de notícias Reuters e Associated Press que o número de mortos subiu para 538, entre eles 490 manifestantes e 48 policiais. Além disso, mais de 10.670 pessoas teriam sido presas, segundo a organização neste domingo (11).
Outras ONGs de direitos humanos que monitoram a situação no Irã também têm reportado nas mortes dos protestos. O país está isolado do resto do mundo após Khamenei ter cortado a internet, então não se sabe ao certo quantas pessoas realmente morreram, porém, as organizações têm recebido relatos de que as forças de segurança iranianas dispararam contra os manifestantes.
O governo iraniano não está divulgando regularmente números oficiais da atuação policial nos protestos e acusa os EUA e Israel de se infiltrarem nos protestos e os culpam pelas mortes ocorridas nos movimentos.
O chefe da polícia do Irã, Ahmad-Reza Radan, afirmou neste domingo que as forças de segurança "escalaram o nível de confronto contra os manifestantes". A Guarda Revolucionária do Irã, um importante ator militar no país, afirmou que proteger a segurança nacional é um ponto inegociável.
O presidente do Irã, Masoud Pezeshkian, pediu neste domingo que a população iraniana mantenha distância do que chamou de "terroristas e badernistas" e tentou buscar uma via de diálogo com os manifestantes. Ao mesmo tempo, Pezeshkian acusou os Estados Unidos e Israel de "semear caos e desordem" no país.